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Em entrevista com o poeta Douglas Diegues, professora aborda aspectos de uma semiosfera literária “matogrossulense”

Poeta Douglas Diegues

Com o objetivo de estudar  a cultura “Literária matogrossulense.”, ou seja, autores nascidos no Mato Grosso unificado e que a partir da divisão do estado, passaram a ser autores sul-mato-grossenses, a professora Gicelma Chacarosqui, da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), tem desenvolvido pesquisas e uma série de estudos com protagonistas deste processo.

Nesta  entrevista com o poeta Douglas Diegues, ela cita que a abordagem faz parte de um projeto maior,  que é a pesquisa “Identidade e representação cultura matogrossulense: Aspectos de uma semiosfera de literatura e arte”. Além de Diegues, ela destaca ainda outros poetas, como Athayde Nery de Freitas Jr. Moacir Lacerda ( Grupo Acaba), Raquel Naveira e Sylvia Cesco, entrte outros.

Nesta entrevista com Douglas Diegues (em foto de arquivo com o poeta Manoel de Barros), Gicelma cita forma do viés intersemiótico, para pontuar aspectos que fundamentam a poética de Douglas Diegues, que não nasceu em MS, mas tem fortes vínculos com a região da fronteira de MS com o Paraguai, onde passou a infância.

“Pretendemos assim levantar o papel da fronteira e seus ressoadores – enquanto metáfora da matéria poética na escritura do autor elencado, pois percebe-se que a fronteira na escritura de Douglas, se mostra como um tipo de mote criativo. Desta forma, a entrevista é um princípio salutar e primevo que nos proporciona a articulação de aspectos integracionista promovendo a atualização de conhecimentos que servirá como fonte de estudos e divulgação da poética do referido autor. A articulação desses aspectos proporcionará um conjunto de conhecimentos sobre semióticos, literaturios e artísticos, bem como poderá levar a renovação de conhecimentos sobre o corpus proposto, através de novas ideias e questionamentos sobre a poética de Douglas Diegues”, explica a professora.

     E N T R E V I S T A     

Por Gicelma Chacarosqui/ UFGD)

 

GicelmaPoderia se apresentar? 

 Douglas Diegues –  O que apresenta o poeta é a poesia que o poeta apresenta. Aprendi isso com meu amigo poeta Manoel de Barros.

GFale um pouco de você, família, filhos, sonhos e como começou a escrever...

DD: Comecei minhas primeiras tentativas de inventar poemas quando morava no Hotel Americano, em Campo Grande, entre 1979 e 1980. Depois continuei durante a época em que morei em Campinas, entre 1981 e 1989. Foram anos de exercícios e tentativas e leituras e conversas com amigos como o poeta e professor Walther Castelli Jr. Walther Castelli Jr. era uma fonte maravilhosa de leituras e informações literárias e de todos os tipos, porque ele dizia que para um romancista todos os temas e assuntos e fofocas são interessantes. Nos reuníamos na casa dele nos finais de semana e ele dava verdadeiras aulas de literatura ou de cinema ou de música ou de teatro ou de artes visuais ou de mitologia hollywoodiana etc. De modos que esses encontros na casa do Walther Castelli Jr. foram uma espécie de faculdade livre de letras durante os anos que morei em Campinas. Agradeço eternamente a minha mãe, la xe sy, Acela Diegues, ter me mandado estudar primeiro em Lins e depois em Campinas. Ela sempre se preocupou que eu tivesse uma boa formação. Nunca foi negligente como mãe. E ela foi também minha primeira professora de portunhol selvagem. Em 1991 estava morando novamente em Ponta Porã e inventei um jornal cultural chamado teju’í, que significa lagartixa em guaraní-paraguayo, e publicava mitos populares, entrevistas com antigos moradores, poemas de Manoel de Barros, etc. O teju’í era distribuído gratuitamente. Depois se transformou numa revista. Mas a revista teve apenas dois números. Foi um acontecimento relevante. Saiu até uma nota no caderno Mais!, da Folha de São Paulo, saudando a aparição da revista. Os colaboradores eram de alfa categoria: Manoel de Barros, Wilson Bueno, Jamil Snege, Sérgio Rubens Sossélla, Ricardo Guilherme Dicke, Sérgio Medeiros, entre outros. Depois trabalhei em jornais da fronteira e de Dourados entre 1995 e 2000. Depois fui vender orquídeas nas ruas de Dourados. E no final de 2002 foi publicado meu primeiro livro, que se chama “Dá gusto andar desnudo por estas selvas”. Até ágora publiquei dois livros no Brasil e 5 livros em Buenos Aires.

G – Como foi sua trajetória profissional e como escolheu a profissão? 
DD: As literaturas me escolheram. Eu não escolhi nada. Mexo com literaturas, no plural.

G – Como você avalia suas habilidades técnicas  e competências literárias? 

DD: Me considero um leitor de literaturas. Valorizo muito as expressões amerindias. Assumo a tradução como criação. Faço o que posso.

G- O portogaranhol/portunhol selbaje, é uma estratégia literária ou um modo de vida? 

DD: É uma linguagem que inventei para fazer minha literatura; para dizer o indizível de um modo novo ou por lo menos diferente, etc.

G – Quais são suas expectativas, valores, cultura e futuro?

DD: Não tenho expectativas. Vivo o aqui e o agora. Por outro lado, em pleno antropoceno, as expectativas são sombrias. O calor se apresenta de maneira cada vez mais intensa. Há mais desmatamento do que plantio de árvores. O filósofo e biológo Stefano Mancuso já alertou que todas as cidades devem plantar muitas árvores para conter as altas temperaturas. Mas tem um pessoal que não acredita nisso. Então quanto mais houver desmatamento, teremos temperaturas cada vez mais elevadas, além de catástrofes ambientais e urbanas.

G – De acordo com o proposto, o livro “Era uma vez en la Fronteira selvagem” superou as expectativas referente a aceitação?

DD: Não saberia dizer. Minha literatura parece mesmo ser uma literatura do por vir, de um leitor por vir, de uma cultura por vir. Ela está sendo feita agora, está sendo cada vez mais lida, mas é uma escrita do por vir.

G – As histórias contempladas no livro são alusões a personagens da fronteira ou criações de sua imaginação? 
DD: Sim, as histórias provém de fontes antigas da imaginação. São alusões aos humanos quando eles ainda eram bichos e falavam como gente.

G – Pode definir o significado  do personagem “El sapo de All Star? 

DD: El sapo de all Star é um personagem inventado, humanizado, primitivo e contemporâneo ao mesmo tempo. É um personagem de ficção com sua força mágica. Isso se comprova quando você pergunta sobre pessoas e mundo e relação. O sapo de all Star tem uma inverosimilhança que é verossímil.

G – Os desenhos colocados nas páginas são propositais, são grafismos? Tem alguma simbologia, tem referências a questão indígena?

DD: As ilustrações foram feitas pelo grande Ricardo Costa. Mais dados sobre ele estão ao final do livro. Ele fez uma trabalho visual muito bom, que trouxe muita potência ao livro. Tenho entendido que há muitas coisas superpostas. Mas o Ricardo Costa é que poderia abordar melhor essa questão.

G – No conto “Cine Guarani”, a presença de animais dentro de cinema quer remeter às diferentes pessoas que habitam a fronteira? 
DD: O conto Cine Guarani remete à fauna fronteriza que supostamente frequentava esse cinema, que existiu em Pedro Juan Caballero, mas num tempo mágico, que é o tempo do conto, onde os humanos ainda são bichos e falam como gente.

G – Em “La forma de la banana”, o conto tem algum significado específico, remete a amores impossíveis? 
DD: Esse conto é um chiste que se inicia com uma pergunta. E no final se revela a reposta. A interpretação é livre. Não tive intenção de expressar algo de forma oculta.
Nem aludir a nada. O conto se passa fora de mim. O conto se passa no mundo dos contos de fada. E eu não faço parte desse mundo dos contos de fadas.

G – Neste conto tem a presença de outros contos, como Capeuzinho Vermelho, Três Porquinhos e o Super Homem, que é turco. Como você justifica esta presença?
DD: O mundo desses contos é o mundo do conto de fadas, do relato mítico, um mundo que existe e não existe, o mundo da mitologia popular, o mundo da mitologia do cinema trash do oriente-médio, de onde vem o Super-homem Turko. É um nome forte, marcante, tem uma intensidade própria, você ouve uma vez e nunca mais esquece.

G – Você acredita que a linha limite da fronteira não é obstáculo para o portunhol selvagem? Qual o futuro do portunholito? 

DD: O futuro do portunhol selvagem está nas origens. O portunhol selvagem é como um cometa-jaguaretê ensaboado que regressa todos os dias ao futuro.

G – Quais suas palavras para finalizar esta entrevista?

DD: Em breve saem novos livros aqui e na Argentina. Mas ainda não posso comentar nada sobre isso. Eu é que agradeço por seu interesse em ler e entender o meu trabalho.

(Gicelma da Fonseca CHACAROSQUI-TORCHI)

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