Mulher indígena: María-Kuarahy é personagem de conto da professora Gicelma Chacarosqui

Por Gicelma Chacarosqui*
MARÍA- KUARAHY
No nascer do Kuarahy a tatu atravessou a trilha e se escondeu na moita de sandices! Ali tinha buraco na certa ! Bingo ! Buraco transporta do simplório passado distante para o moderno presente angustiante ! Carapaças de vidro acrílico, coloridas e contemporâneas! Telefones Modernos, satélites e aviões ultra-sônicos, internet 5 G , TV digital , sensacional, uauuu quanta tecnologia! E o sentimento ? A tatu e Maria ! Para quê? E o povo ? Ah , pobres selvagens tecnizados, ouvindo pagode-sertanejo e chorando de amor e dor, embrenhados e/ou afogados em “pinos da mais pura” acelerada tranquilidade- brega-poética ! Ou seria um corotinho de água-ardente ? Pontente poesia do dia a dia? Vai Maria ! Publica no Instagram e ganha curtidas só da filha, amantes e da tia ! Mas publica , Maria ! Profético fingimento! Alcançou três mil , num acento ! Ah, e a política ? Um doce ás púnico lamento ! Chora não Maria !Você é Kuarahy brilhante ao meio dia !
O que não tem remédio, remediado está !
A lua lambeu seu cabelo , prateou e virou dia ?! Maria ? Maria-tatu ! A tatu é Maria?
Invernadas de pensamentos nebulosos! Sofrimento impreciso ! Uma porteira de angústia e uma imensidão de intermitências ! Ah, o perigo de viver ! Roseano dizer, simples, costumás, precioso e verdadeiro ! Um mata-burro adiante , é um solavanco no coração sertanejo que dói de amor e faltas infinitas ! Mentiras? Desalentos ? Desacertos?
Seria crime pensar, viver, reclamar ? Crime maior seria ser, estar mulher, e amar ! Minha culpa, máxima culpa ! Uma tatu desobediente! Maria só -frente! Uma Maria-Kuarahy-menina-mulher, rápida e transparente ! Dá ré menina ! Volta pro buraco do tempo ! Recolha seu contingente de tatuzices e se lance ao rio ! Ah , doce rio empalmitado , aprisionado , sem liberdade pra molhar as margens … não tem saída menina ! Cavuca mais um pouco, quem sabe não alcançará o sofá da sala ?Czvz zzze, mais um tiquinho , não desista menina de língua afiada e nariz arrebitado. Olha, quem sabe, ali no entre-molas e poeira, você consiga cavar um buraco e chegar ao peito de pedra do seu amor-bandido e fazer morada ? Tenta menina , nunca é tarde para ser uma Maria-Sol ressignificada e valente ! Coloque o batom vermelho , a echarpe colorida , tome banho de chuva e nada de usar luvas ! Vai Maria, reinvente , você é chama que a vida chama ! Incandescente!Vai, persiga , insista , enxugue as lágrimas reprezadas na alma! Vai Maria, recupere a fênix das cinzas dos desacertos , e sorria ao sol , Maria …
*A autora é Pós-doc, em andamento pela Universidade de Salamanca /Esp; Pós-doc pelo ECCO, UFMT; Doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP; Mestrado em Estudos Literários e graduação em Letras Português Literatura Brasileira pela UFMS. É professora Titular da UFGD. Membro da Academia Douradense de Letras e da UBE-MS. Autora de diversos livros e periódicos.

