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Antes da fábrica, Bataguassu prepara trabalhadores e a cidade para uma nova fase industrial

À espera da implantação da fábrica da Bracell, projetada em R$ 16 bilhões, Bataguassu já investe em qualificação, habitação, planejamento urbano e infraestrutura. Moradora da cidade há 20 anos, Roni Pereira de Lima concluiu curso de mecânica florestal e espera uma vaga no setor. O Governo de Eduardo Riedel também prevê obras viárias, preparação de fornecedores e ações para antecipar os impactos do crescimento industrial.

Quando Roni Pereira de Lima viu a oferta de um curso de mecânica florestal em Bataguassu, sua primeira reação foi imaginar que aquela formação não fosse para ela. Moradora do município há 20 anos, decidiu conferir pessoalmente.

“Quando eu vi que era mecânica florestal, pensei que era só para homens. Fui até o local das inscrições e perguntei se poderia ter mulheres também. Falaram que sim. Na nossa turma eram só três meninas e 22 homens”, conta.

A curiosidade virou uma escolha profissional. Durante cerca de dois meses e meio, em período integral, Roni passou por aulas teóricas, atividades práticas e uma imersão de sete dias no campo. A perspectiva era aproveitar as oportunidades que poderão surgir com a expansão do setor florestal e, especialmente, com a futura instalação da fábrica da Bracell.

“Eu achei uma possibilidade boa para entrar no mercado de trabalho, porque Bataguassu está em uma fase que vai mexer bastante com essa parte de máquinas florestais”, afirma.

Roni ainda espera sua vaga. Alguns colegas de turma já foram chamados para trabalhar. Ela pretende continuar estudando.

“Bataguassu está crescendo demais, tem outras empresas terceirizadas aparecendo na cidade. E conhecimento nunca é demais.”

A experiência dela ajuda a traduzir, para além dos bilhões anunciados, o tamanho da mudança para a qual uma cidade de 24,2 mil habitantes começou a se preparar. A fábrica projetada pela Bracell prevê investimento de R$ 16 bilhões, mobilização de até 12 mil trabalhadores durante sua implantação e aproximadamente 2 mil empregos diretos quando entrar em operação.

Preparar antes de contratar – A fábrica ainda não está em construção. O empreendimento possui Licença Prévia, que aprovou sua localização e concepção ambiental, mas depende da Licença de Instalação para que as obras possam começar.

O pedido apresentado pela empresa foi retirado para ajustes no projeto e na área do empreendimento. As informações presentes no material indicam que a documentação deverá ser reapresentada e que o início da construção passou a ser esperado para 2027.

O intervalo entre o anúncio e o canteiro de obras colocou diante do poder público uma questão concreta: como preparar Bataguassu antes que milhares de novos trabalhadores pressionem moradia, trânsito, escolas, serviços e infraestrutura?

A estratégia apresentada pelo governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato  à reeleição, parte dessa antecipação. Em vez de esperar o investimento chegar para então reagir às consequências, a proposta é preparar estradas, habitação, serviços públicos e trabalhadores enquanto ainda há tempo para planejamento.

Uma das principais respostas começou em maio de 2025, com a inauguração da Escola Técnica Municipal. São mais de 4,8 mil metros quadrados, com salas de aula, oficinas de mecânica e tornearia industrial e espaços voltados à formação para a construção civil e a cadeia florestal.

Entre os cursos anunciados estão Mecânico de Máquinas Florestais, com 340 horas e bolsa de R$ 1,2 mil, e Técnico em Florestas, com 1,2 mil horas. Prefeitura e Bracell também anunciaram uma formação de dois anos para mais de 120 alunos, com compromisso de contratação ao final do curso.

O objetivo é formar profissionais antes do momento de maior demanda. Mecânicos, operadores, eletricistas, técnicos florestais e trabalhadores da manutenção precisam de meses — em alguns casos, anos — de capacitação.

Qualificação mirando as vagas que ainda virão – O SENAI já mantém em Bataguassu turmas técnicas e de qualificação profissional nas áreas de manutenção industrial, gestão, logística e setor florestal.

Segundo o gestor da região Costa Leste da instituição, Rodrigo Bastos, o trabalho busca identificar com antecedência quais profissionais serão procurados pelas empresas e organizar os cursos de acordo com essas necessidades.

“Bataguassu passa por um momento importante de fortalecimento industrial, impulsionado principalmente pelo crescimento do setor florestal, da logística e da cadeia produtiva de celulose. O papel do SENAI é atuar lado a lado com as empresas para identificar os profissionais que serão necessários e desenvolver cursos alinhados às competências exigidas”, afirma.

Além das demandas atuais, a instituição já olha para áreas relacionadas às novas plantas industriais previstas para o município. Eletrotécnica, mecânica, eletromecânica e automação aparecem entre aquelas com maior potencial de contratação.

“Nosso trabalho é antecipar essa demanda para que a população esteja preparada quando essas oportunidades se consolidarem”, resume Bastos.

É nesse ponto que a trajetória de Roni deixa de ser apenas a história de uma aluna que resolveu experimentar uma profissão tradicionalmente associada aos homens. Ela representa a tentativa de fazer com que parte das futuras vagas seja ocupada por quem já vive na região.

“O curso foi maravilhoso, foi tudo o que eu imaginava. Tivemos aula teórica e depois veio a prática, que foi sensacional, porque é quando você coloca a mão na massa”, relata.

Quando o crescimento chega primeiro ao aluguel – Formar trabalhadores é apenas uma parte da preparação.

Em janeiro, representantes do Governo do Estado, da prefeitura, da Bracell e do Sebrae discutiram demandas ligadas à implantação do empreendimento. A habitação apareceu entre as principais preocupações.

Governo, município e empresa passaram a avaliar áreas que possam receber novas moradias. A questão ultrapassa os futuros empregados da fábrica: quando milhares de pessoas chegam a uma cidade com pouca oferta de imóveis, a pressão sobre os aluguéis também pode alcançar moradores antigos, aposentados e famílias de menor renda.

Bataguassu iniciou ainda a revisão do Plano Diretor, com atenção à expansão urbana, ao trânsito, à ocupação do território e à localização de novos bairros.

Em março de 2026, o município lançou um Plano de Desenvolvimento com validade até 2028, organizado em quatro eixos: desenvolvimento econômico; educação e capital humano; infraestrutura e mobilidade; e gestão pública e inclusão social.

Segundo Riedel, o planejamento engloba saneamento, expansão urbana ordenada, ensino técnico, modernização da educação, diversificação econômica e fortalecimento da assistência social, com indicadores destinados ao acompanhamento das medidas.

Rodovias para uma economia que deve ganhar peso – A transformação também passa pelas estradas. Em fevereiro, o Governo de Mato Grosso do Sul formalizou a concessão da Rota da Celulose, formada por 870 quilômetros de rodovias entre Campo Grande e a Costa Leste.

O projeto prevê aproximadamente R$ 10 bilhões em duplicações, acostamentos, terceiras faixas, recuperação do pavimento e atendimento aos usuários.

A concessão inclui a BR-267 entre Bataguassu e Nova Alvorada do Sul, corredor diretamente relacionado ao futuro empreendimento. Estão previstos 254 quilômetros de faixas adicionais, 456 quilômetros de acostamentos, além de câmeras de monitoramento e postos de atendimento.

A infraestrutura servirá ao escoamento da produção, mas seus efeitos alcançam também quem utiliza as rodovias no cotidiano: transporte escolar, ambulâncias, caminhoneiros e famílias.

O dimensionamento da mudança ajuda a explicar a preocupação. A fábrica poderá consumir aproximadamente 12 milhões de metros cúbicos de madeira por ano, o que deverá ampliar significativamente o tráfego de veículos pesados.

Dentro da cidade, o Governo do Estado anunciou R$ 25 milhões por meio do MS Ativo Municipalismo. O pacote inclui restauração da Avenida Mato Grosso e da Rua Rio Paraná, pavimentação nos bairros Novo Horizonte e São Pedro, melhorias no Núcleo Industrial, sinalização e ações habitacionais em parceria com a Agehab.

“O Estado está aqui para ouvir, dialogar e trabalhar junto nas prioridades da cidade”, afirmou Riedel ao anunciar os investimentos.

Fazer o investimento permanecer na cidade – Há ainda uma questão menos visível que os empregos dentro da fábrica: quanto desse dinheiro poderá circular no próprio município.

Alimentação, manutenção, transporte, hospedagem, uniformes e equipamentos podem ser fornecidos por empresas locais ou contratados fora da região. Quanto maior a participação dos negócios de Bataguassu, maior a possibilidade de o novo ciclo industrial alcançar setores que não estarão diretamente dentro da fábrica.

Para preparar fornecedores, Governo do Estado e Sebrae anunciaram o Encadear, programa voltado a empresas que pretendam atender tanto à construção quanto à futura operação da Bracell.

A proposta inclui melhorias em gestão, documentação, segurança, capacidade produtiva e acesso a crédito.

Bataguassu já reúne comércio, frigoríficos, atividade florestal, agricultura, transportadoras e uma Zona de Processamento de Exportação. O desafio descrito no planejamento é conectar essa estrutura à nova economia, ampliando a parcela de contratos, compras e salários que permanece no município.

Uma transformação que ainda está no futuro – O termo estadual de incentivos fiscais foi assinado em maio de 2025 e a Licença Prévia veio em dezembro. A próxima etapa depende da reapresentação do projeto e da emissão da Licença de Instalação. O início inicialmente projetado para 2026 passou a ser esperado para 2027.

Isso significa que os milhares de empregos, a produção e a arrecadação associados à fábrica permanecem como projeções, não como resultados já alcançados.

A preparação, porém, acontece antes disso. Escola técnica, cursos profissionalizantes, planejamento urbano, preparação de fornecedores e obras rodoviárias já integram o movimento para tentar fazer com que a cidade chegue ao início do novo ciclo com alguma vantagem sobre os problemas que ele poderá trazer.

“A diferença entre crescer e ser atropelada pelo crescimento está na capacidade de antecipação. Uma cidade preparada pode ampliar empregos sem expulsar moradores pelo aluguel, receber empresas sem abandonar o comércio local e aumentar a população sem sobrecarregar permanentemente escolas, unidades de saúde e ruas”, afirma Riedel.

Para Roni Pereira de Lima, essa preparação tem uma dimensão bem mais imediata. Ela já fez o curso, entrou numa área que inicialmente imaginava não ser para mulheres e viu colegas conseguirem trabalho.

Agora espera sua vez. “Eu tenho vontade de entrar nessa área e estou no aguardo das próximas vagas.”

Enquanto a fábrica permanece no terreno das próximas etapas do licenciamento, é nessa expectativa — de transformar qualificação em emprego — que a mudança começa a ganhar rosto.

(Da assessoria)

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