Desmatamento e agrotóxico já são os maiores inimigos da agricultura brasileira, revela relatório

O professor Carlos Alfredo Joly, da Unicamp e especialista em biodiversidade

O agronegócio brasileiro tende a se autodestruir e gerar grande prejuízo para a agricultura brasileira nas próximas décadas se continuar com o desmatamento e uso intensivo de agrotóxicos. Esse é o alerta que fica do primeiro Relatório Temático de Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil e de seu respectivo “Sumário para Tomadores de Decisão”, lançados no dia 6 de fevereiro, durante evento na Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). O relatório foi elaborado nos últimos dois anos por um grupo de 12 pesquisadores e revisado por 11 especialistas.

Segundo os pesquisadores, o desmatamento e uso intensivo de agrotóxicos, aliados às mudanças climáticas, estão destruindo o sistema ecológico e gratuito de polinização feito principalmente por abelhas, outros insetos e aves.

Esse serviço ambiental (ecossistêmico) gratuito para o agricultor tem um valor estimado R$ 43 bilhões por ano em benefício da agricultura, segundo o relatório. Ele é fundamental para garantir a segurança alimentar da população e a renda dos agricultores brasileiros, mas tem sido ameaçado por esses fatores como o desmatamento, as mudanças climáticas e o uso de agrotóxicos.

O relatório alerta que o modelo de agronegócio atual coloca em risco a produção de alimentos e a conservação da biodiversidade  que são necessárias políticas públicas integradas para evitar um grande dano para o próprio setor do agronegócio.

Das 191 plantas cultivadas ou silvestres utilizadas para a produção de alimentos no Brasil, com processo de polinização conhecido, 114 (60%) dependem da visita de polinizadores, como as abelhas, para se reproduzir. Entre esses cultivos estão alguns de grande importância para a agricultura brasileira, como a soja, o café, o feijão e a laranja.

O grupo de pesquisadores fez uma revisão sistemática de mais de 400 publicações de modo a sintetizar o conhecimento atual e os fatores de risco que afetam a polinização, os polinizadores e a produção de alimentos no Brasil, e apontar medidas para preservá-los.

“O relatório aponta que o serviço ecossistêmico de polinização tem uma importância não só do ponto de vista biológico, da conservação das espécies em si, como também econômica. É essa mensagem que pretendemos fazer chegar a quem toma decisões no agronegócio, no que se refere ao uso de substâncias de controle de pragas ou de uso da terra no país”, disse Carlos Alfredo Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do programa BIOTA-FAPESP e membro da coordenação da BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos).

O relatório indica que uma lista de 600 animais visitam as plantas, dos quais, no mínimo, 250 têm potencial de polinizador. Entre eles estão borboletas, vespas, morcegos, percevejos e lagartos.

As abelhas predominam, participando da polinização de 91 (80%) das 114 culturas agrícolas que dependem da visita de polinizadores e são responsáveis pela polinização exclusiva de 74 (65%) delas.

Os pesquisadores avaliaram o grau de dependência da polinização por animais de 91 plantas para a produção de frutas, hortaliças, legumes, grãos, oleaginosas e de outras partes dos cultivos usadas para consumo humano, como o palmito e a erva-mate.

As análises revelaram que, para 76% delas (69), a ação desses polinizadores aumenta a quantidade ou a qualidade da produção agrícola. Nesse grupo de plantas, a dependência da polinização é essencial para 35% (32), alta para 24% (22), modesta para 10% (9) e pouca para 7% (6).

O relatório também destaca que o serviço ecossistêmico de polinização no Brasil tem sido ameaçado por outros fatores também, além do desmatamento, mudanças climáticas e agrotóxicos. Espécies invasoras, poluição ambiental, doenças e patógenos também afetam a polinização.

O desmatamento leva à perda e à substituição de hábitats naturais por áreas urbanas. Essas alterações diminuem a oferta de locais para a construção de ninhos e reduzem os recursos alimentares utilizados por polinizadores.

A aplicação de agrotóxicos para controle de pragas e patógenos, com alta toxicidade para polinizadores e sem observar seus padrões e horários de visitas, pode provocar a morte, atuar como repelente e também causar efeitos tóxicos subletais, como desorientação do voo e redução na produção de prole. Além disso, o uso de pesticidas tende a suprimir ou encolher a produção de néctar e pólen em algumas plantas, restringindo a oferta de alimentos para polinizadores, ressaltam os autores do relatório.

Na avaliação dos pesquisadores, apesar do cenário adverso, há diversas oportunidades disponíveis para melhorar o serviço ecossistêmico de polinização, diminuir as ameaças aos polinizadores e aumentar o valor agregado dos produtos agrícolas associados a eles no Brasil.

(Fonte: Carta Campinas)

 

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