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Para professar a fé sem medo, comunidades de matriz africana fazem ato em Dourados

A necessidade de dar voz a um sentimento de muitos terreiros e comunidades de matriz africana, mobiliza uma passeata marcada para sábado, dia 1º de agosto, na Praça Antônio João, em Dourados. O pedido é de união e respeito à liberdade religiosa para que todos exerçam a própria fé com dignidade.

“A Praça Antônio João é um espaço público, democrático e simbólico para toda a cidade. É um local onde diferentes manifestações da sociedade acontecem e representa o direito de todos ocuparem os espaços públicos de forma pacífica. Escolhê-la significa mostrar que as religiões de matriz africana também fazem parte da história, da cultura e da sociedade douradense”, afirma Nadja Flavia Winkler, Mametu Ofá (mãe de santo) líder espiritual da Casa de Caridade Tenda de Oxóssi – Inzo Aueto Kabila Daonã, Candomblé de Nação Angola.

A concentração na praça está prevista para começar 13h. Em seguida, os participantes devem passar pelas ruas do centro da cidade, com faixas e cartazes em defesa da liberdade, direitos humanos, respeito às diferenças e combate à intolerância e ao racismo religioso.

“Queremos que cada pessoa que veja a caminhada compreenda que nossa luta não é apenas pela nossa religião, mas pelo direito de qualquer cidadão viver sua fé sem medo”, acrescenta Nadja Flavia.

A organização orienta que todos levem suas famílias e vistam branco, como forma de representar paz, respeito e esperança. A expectativa é reunir a maior quantidade de pessoas possível.

“Mais importante que um número específico é demonstrar união. Temos recebido manifestações de apoio de diversas lideranças religiosas, representantes de terreiros, simpatizantes e pessoas de outras crenças que entendem que a defesa da liberdade religiosa é uma causa de toda a sociedade”, argumenta.

A Mametu Ofá lembra que a manifestação não pede por um privilégio, mas por um direito que é previsto em lei para todos os brasileiros.

“Nossa Constituição garante a liberdade religiosa, mas, na prática, muitas vezes esse direito ainda precisa ser defendido. Nossa caminhada busca lembrar que nenhuma religião deve ser tratada com menos respeito que outra. O Brasil é um Estado laico, e isso significa que todas as crenças merecem proteção e dignidade”, acrescenta.

Intolerância em Dourados – “Muitas vezes, práticas sagradas da nossa religião são tratadas de forma diferente de manifestações semelhantes em outras tradições. Acreditamos que isso acontece por falta de conhecimento, preconceitos históricos e racismo religioso que ainda precisam ser enfrentados pela sociedade”, acrescenta a líder espiritual.

Ela lembra que em Dourados, há episódios envolvendo denúncias constantes, conflitos e outras situações que preocupam a comunidade de axé. “A intolerância contra as religiões de matriz africana sempre existiu, mas hoje ela também se manifesta de formas mais visíveis e, muitas vezes, mais organizadas”, afirma.

Najla Flavia ainda afirma que depois de meses enfrentando dificuldades, adequações exigidas por órgãos públicos e situações que atribui como reflexo da intolerância religiosa, sentiu que era o momento de transformar a dor em um movimento de paz, união e conscientização. “Não vamos às ruas contra ninguém. Vamos às ruas em defesa do direito de existir”, afirma.

Casos recentes – A Tenda de Oxóssi é alvo de um inquérito civil instaurado pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), para apuração de possível prática de poluição sonora, decorrente da emissão de ruídos acima dos níveis permitidos, assim como funcionamento desprovido de Alvará de Localização e Funcionamento definitivo. A apuração começou após um vizinho se queixar, entre outros pontos, de perturbação de sossego.

A Mametu Ofá chegou a gravar uma série de vídeos para a página oficial da Tenda nas redes sociais, rebatendo as acusações e falando sobre o andamento dos trâmites para garantir o alvará definitivo dentro das previsões legais, com trâmites burocráticos que se arrastam desde janeiro deste ano. Enquanto isso, a Casa está fechada.

“Nosso terreiro é mais do que um espaço religioso; é um lugar de acolhimento, assistência social, cultura, tradição e ancestralidade. Ver nossa comunidade impedida de exercer plenamente sua fé causa sofrimento para todos. Mesmo assim, escolhemos responder com diálogo, respeito às instituições, cumprimento das exigências legais e luta pelos nossos direitos”, afirmou a líder espiritual.

Outros casos também já foram noticiados pelo Dourados News, como o de uma mulher que procurou a Polícia Civil na segunda-feira, dia 20, para denunciar ataques à sua residência, onde também funciona uma Casa de Umbanda, no bairro Vila Santa Catarina. Ela relatou que o imóvel já foi alvejado por pedras diversas vezes após sessões de culto.

Ainda este ano, mais uma ocorrência ganhou repercussão. O Comafro (Conselho Municipal de Defesa e Desenvolvimento dos Direitos Afro-brasileiros) registrou na Polícia Civil o caso de uma dona de casa, de 57 anos, que teria feito comentários em postagem feita pelo líder de uma religião de matriz africana, que mostrava uma celebração ao em homenagem ao Dia de Iemanjá (2 de fevereiro). A mulher teria feito referência ao ato religioso como “putaria” e “maldição”, dizendo que deveriam pedir perdão a Deus.

(Por Fabiane Dorta, do Douradosnews)

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