Suinocultura: A cadeia que transforma trabalho e renda em MS
Quando entrou na Aurora Coop, aos 18 anos, Sidinei Malacarne começou na linha de desossa. Depois, tornou-se operador de máquinas, passou por diferentes setores da indústria, foi encarregado de produção durante nove anos e, há 14, trabalha como supervisor da área industrial. Ao longo de 29 anos, acompanhou a unidade de São Gabriel do Oeste deixar para trás a estrutura pequena que conheceu no início e se transformar em uma das principais geradoras de emprego da região.
Foi também dentro da cooperativa que Sidinei construiu parte de sua vida. Enquanto trabalhava, formou-se em Administração em Agronegócio e fez especializações em Tecnologia de Alimentos, Gestão de Produção e Gestão de Pessoas. Na empresa, conheceu a esposa, que também atua na Aurora há mais de dez anos. O casal tem dois filhos, Maria Vitória, de 14 anos, e Bernardo, de seis.
A trajetória de Sidinei ajuda a traduzir a estratégia defendida pelo governador Eduardo Riedel, candidato à reeleição pelo Progressistas: aproveitar a força da produção rural de Mato Grosso do Sul para manter dentro do Estado uma parcela maior do processamento, dos salários e da renda gerados pela cadeia de alimentos.
“Comecei como operador de produção, passei por operador de máquina, trabalhei em diversos setores da indústria, fui encarregado de produção por nove anos e hoje sou supervisor. A Aurora sempre abriu portas para quem quer crescer”, afirma Sidinei.
Em julho de 2026, a cooperativa inaugurou a ampliação do frigorífico de São Gabriel do Oeste depois de investir R$ 350 milhões. A capacidade de abate passou de 3,2 mil para 5 mil suínos por dia. A expansão também projeta elevar o quadro de 2.650 para aproximadamente 3.700 empregos diretos.
Para Sidinei, o crescimento não se limita aos portões da fábrica. Ele alcança o comércio e municípios vizinhos, de onde vêm muitos trabalhadores. “Hoje a gente colhe os frutos no comércio local, no crescimento da cidade e no desenvolvimento econômico da região”, observa.
Da lavoura ao alimento processado – A cadeia começa antes do frigorífico. Soja e milho produzidos em Mato Grosso do Sul podem ser transformados em farelo, DDG e ração. Esses insumos alimentam os suínos criados nas propriedades rurais, que depois seguem para a indústria e se tornam cortes, presuntos, defumados, hambúrgueres e outros alimentos destinados ao mercado brasileiro e à exportação.
A soja pode virar farelo em Naviraí. O milho pode ser processado nas usinas de etanol e retornar à cadeia como DDG, coproduto usado na alimentação animal. Em seguida, esses produtos passam por fábricas de ração e granjas antes de chegar aos frigoríficos.
“Soja e milho, farelo e ração, criação de suínos, frigorífico, alimentos processados e mercado consumidor. Cada etapa exige transporte, tecnologia, energia, assistência veterinária, manutenção, laboratórios e trabalhadores”, afirma Riedel.
Mato Grosso do Sul encerrou 2025 com mais de 300 granjas, aproximadamente 121 mil matrizes e mais de 3,6 milhões de suínos abatidos, segundo a Associação Sul-Mato-Grossense de Suinocultores. A entidade estima que a cadeia gere cerca de 32 mil empregos diretos.
Na prática, fechar esse ciclo significa fazer com que o grão não deixe o Estado apenas como matéria-prima e que o animal não saia apenas como carcaça. “Quanto mais etapas permanecem em território sul-mato-grossense, maior é a presença de indústria, serviços especializados, tecnologia e trabalho na economia local”, lembra o governador.
Na granja, previsibilidade para investir – Em Bandeirantes, esse movimento chega à rotina do produtor rural Rafael Paludo De Marco e de sua esposa, Cassiana. Há cinco anos, os dois decidiram incluir a suinocultura na atividade da família, tradicionalmente ligada à agricultura. Cooperados da Coasgo e da Aurora Coop, eles administram a Granja Cambaru, voltada à terminação de suínos.
A decisão buscava diversificar a renda e reduzir a exposição às oscilações do mercado agrícola e à dependência do clima. “Vimos na suinocultura uma oportunidade de diversificar as fontes de renda da família. Nesse cenário de integração com a Aurora, temos uma previsibilidade maior e mais segurança quanto ao retorno do investimento”, explica Rafael.
A granja abriga 6.500 suínos na fase final do ciclo produtivo. Os leitões chegam com peso médio de aproximadamente 23 quilos e permanecem na propriedade até alcançarem entre 125 e 130 quilos, quando seguem para o abate.
A atividade combina escala e tecnologia. A alimentação é automatizada, e os resíduos passam por um biodigestor antes de serem utilizados na fertilização do solo. Segundo Rafael, a suinocultura se tornou a principal fonte de renda da família e trouxe benefícios para o conjunto da propriedade.
“Não é apenas o ganho com a produção de carne, mas todo o benefício que essa atividade traz para a propriedade”, afirma.
A ampliação da Aurora deu à família segurança para planejar um novo módulo, também com capacidade para 6.500 suínos em terminação. O projeto está em desenvolvimento desde 2025 e, segundo Rafael, poderá sair do papel no próximo ano.
“Essa ampliação é uma resposta aos investimentos que vemos chegando à nossa região. Isso nos dá solidez para continuar investindo, porque sabemos que o que produzirmos será absorvido pela indústria e continuará gerando renda”, diz o produtor.
São Gabriel amplia produção e empregos – A obra da Aurora acrescentou 9,5 mil metros quadrados aos 38,6 mil já existentes. Do investimento de R$ 350 milhões, cerca de R$ 125 milhões foram destinados a máquinas e equipamentos, R$ 130 milhões à construção civil e R$ 95 milhões às instalações industriais.
Com a ampliação, a capacidade de abate cresceu 60% e chegou a 5 mil animais por dia. A produção industrializada poderá alcançar 432 toneladas diárias, incluindo presuntos, produtos cozidos e defumados, frescais e banha.
É nessa etapa que ocorre uma parcela importante da agregação de valor. O animal passa por cortes, formulação, cozimento, defumação e embalagem. Cada processo acrescenta trabalho, tecnologia e serviços ao produto final.
A Aurora projeta elevar a receita bruta anual da unidade em R$ 733 milhões, chegando a R$ 2,399 bilhões, além de acrescentar R$ 237,5 milhões ao movimento econômico regional. Como se trata de projeção empresarial, os efeitos deverão ser medidos após a utilização plena da nova capacidade.
A planta está habilitada a exportar para mercados como Vietnã, Singapura, Hong Kong, Emirados Árabes, Uruguai, Paraguai e Moldávia. Em 2025, Mato Grosso do Sul exportou mais de 20 mil toneladas de carne suína, volume 11% superior ao registrado no ano anterior.
O cooperativismo faz a ligação entre produtores, assistência técnica, criação, transporte e industrialização. A expansão de um frigorífico, porém, exige aumento correspondente da produção nas granjas. “Esse crescimento tem muito a ver com o cooperativismo”, afirma Riedel.
O papel do Estado – O Governo de Mato Grosso do Sul não cria os animais nem administra os frigoríficos. Sua atuação ocorre por meio de incentivos à produção e aos investimentos industriais, infraestrutura, defesa sanitária, licenciamento, qualificação de trabalhadores e articulação entre cooperativas, produtores e empresas.
Um dos instrumentos estaduais é o Leitão Vida, subprograma do Proape voltado à suinocultura. Os incentivos são vinculados a critérios produtivos, sanitários, ambientais, trabalhistas e de biossegurança.
Entre 2020 e 2024, o programa destinou mais de R$ 252 milhões, alcançando 10,6 milhões de animais abatidos e mais de 100 mil matrizes. Os repasses anuais passaram de R$ 31 milhões, em 2020, para mais de R$ 64 milhões em 2024.
Em 2025, o Leitão Vida foi modernizado com critérios de biossegurança, bem-estar animal e sustentabilidade ambiental, econômica e social. A intenção é fazer com que a expansão não ocorra apenas pelo aumento do número de animais, mas também pela melhoria das condições produtivas e sanitárias exigidas pelos mercados consumidores.
Para Riedel, a industrialização depende da articulação entre todas as etapas. “O resultado nasce da conexão entre lavoura, produtor integrado, cooperativa, indústria, serviços públicos e mercados consumidores”, afirma.
Dourados prepara nova expansão – No sul do Estado, a JBS/Seara mantém um projeto de R$ 1,2 bilhão para ampliar a unidade de Dourados e alcançar capacidade de 10 mil suínos por dia. O gerente regional de agropecuária da empresa, Márcio Polazzo, informou que a intenção era passar de cerca de 4 mil para 10 mil animais diários.
O estágio do investimento e seu cronograma, contudo, ainda precisam ser atualizados diretamente com a companhia. A capacidade final não pode ser tratada como resultado já alcançado. Licença ambiental, construção, instalação de equipamentos e operação plena são etapas diferentes, e os efeitos sobre emprego, produção e arrecadação só poderão ser medidos após a conclusão.
Entre janeiro e maio de 2026, o abate de suínos criou 484 empregos, o segundo melhor resultado da indústria de transformação estadual. O abate de aves abriu outras 247 vagas, enquanto a fabricação de produtos de carne acrescentou 145. No mesmo período, Dourados registrou saldo industrial de 555 postos.
“São empregos para operadores, técnicos de manutenção, profissionais de qualidade, eletricistas, mecânicos, motoristas, veterinários, laboratoristas e trabalhadores da logística”, ressalta Riedel.
A expansão, entretanto, aumenta a necessidade de formação profissional. Frigoríficos mais automatizados exigem trabalhadores capazes de operar equipamentos, acompanhar processos e cumprir protocolos sanitários. O alcance social dos investimentos será maior se moradores de Dourados, São Gabriel do Oeste e cidades vizinhas conseguirem ocupar também as funções mais especializadas.
Crescimento exige equilíbrio – Uma indústria ampliada precisa receber mais animais todos os dias. Isso exige novas granjas, expansão das propriedades existentes, mais ração, transporte, energia, água, estradas vicinais, licenciamento e manejo adequado dos resíduos.
A cadeia precisa crescer de forma coordenada. Se os frigoríficos avançarem mais rapidamente que as granjas, poderão buscar animais em outros estados. Se a produção rural se expandir sem capacidade industrial suficiente, os produtores enfrentarão dificuldades para comercializar.
O mesmo vale para as cidades. Novos empregos aumentam a demanda por moradia, transporte, saúde e educação. As granjas necessitam de crédito, energia, licenciamento e assistência técnica. Os trabalhadores precisam ser qualificados antes que as vagas sejam abertas.
Para Rafael, a expansão da suinocultura já movimenta mais do que a atividade dentro das propriedades. “Não é apenas a granja que é impactada, mas toda a cadeia, como a logística e a prestação de serviços. Isso traz oportunidades para todos”, afirma.
Sidinei também enxerga o crescimento pela dimensão das vidas ligadas à indústria. Perto de completar três décadas na Aurora, ele pretende chegar a pelo menos 35 anos de trabalho antes da aposentadoria. “Tenho muito orgulho de fazer parte dessa história e quero continuar contribuindo”, diz.
A experiência de Sidinei, da linha de desossa à supervisão, e o plano de Rafael de duplicar a capacidade da granja mostram os dois lados de uma mesma transformação. O grão vira ração, a ração alimenta os animais e os animais chegam à indústria, onde se transformam em alimentos destinados ao Brasil e ao mundo.
O desafio de Mato Grosso do Sul é fazer com que esse ciclo cresça sem perder equilíbrio, sanidade, sustentabilidade e capacidade de incluir trabalhadores e produtores. A força continua nascendo no campo, mas passa a gerar mais indústria, qualificação e renda nas etapas seguintes.
(Da assessoria)

