“Surpresas” no lixo provocam licença de 3 coletores por semana

Sem descarte correto, vidros, seringas e espetos causam ferimentos em coletores – Fotos: Kisie Ainoã

Richard Gutierrez, 22 anos, já se acostumou com as pequenas e desagradáveis surpresas que fazem parte da função de coletor de lixo em Campo Grande: em três anos de serviço, já foram pelo menos cinco episódios de ferimentos provocados por objetos – que não deveriam – mas estão nos lixos da população.

“É vidro, agulha, espeto de churrasco, latas de bebidas, pedaços de ferro”, enumera a educadora ambiental Mara Calvis que, há seis anos, presta serviço para a Solurb concessionária de limpeza e coleta de lixo da Capital, fazendo palestras em empresas, escolas e condomínios.

Esse é um dos projetos para evitar um problema recorrente: por semana, pelos menos três coletores são afastados das funções para tratamento e recuperação, decorrente desses ferimentos.

Segundo o encarregado da segurança do trabalho da concessionária, Readir de Andrade, mesmo quando não há afastamento da função, o coletar passa por tratamento, passando por exames e consultas. Se for ferimento provocado por agulha, é encaminhado ao Hospital Dia, sendo administrado o PEP HIV/Aids (Profilaxia Pós-Exposição), que deve ser tomado por 28 dias.

Também é administrada a vacinação antitetânica e contra raiva nos casos de mordeduras de animais, outro incidente comum na função. No primeiro semestre, segundo Andrade, foram seis mordeduras registradas na Capital.

Mara Calvis alerta que o acondicionamento precário do lixo não é problema exclusivo dos coletores. “Na coleta seletiva, fere o catador da usina de triagem; no condomínio que a pessoa descartou o lixo, pode ferir o funcionário de serviços gerais do prédio, doméstica ou familiar que leva o saco para a lixeira, qualquer um pode se machucar”.

Bom exemplo foi postado nas redes sociais e teve cerca de 8 mil compartilhamentos

Bom exemplo –Os exemplos citados pela palestrante e o encarregado são vividos pelos coletores diariamente. “Casos de acidente tem de monte”, diz Kaleb Gomes, 25 anos, há um ano e meio na função. Ele reclama que as pessoas não têm cuidado em jogar vidro e agulhas e, sem aviso, eles não percebem o risco. “Não tem como saber; e a gente não vai chegar com carinho, né? Bota a mão e acaba furando”.

Quando um morador toma o procedimento correto, o feito chega a ser comemorado. Foi o caso de uma mulher que, sem caixa de papelão em casa, teve que colocar pedaços de vidro em uma sacola plástica, mas colocou bilhete avisando para que os “meninos” tivessem cuidado. A foto foi postada nas redes sociais e teve cerca de 8 mil curtidas e 7,8 mil compartilhamentos.

Kaleb explica que, além de colocar vidros em caixa de papelão, a alternativa pode ser garrafa pet, sempre com aviso colado. “Seringa é lixo hospitalar, tem que descartar em posto de saúde; se não der, usa garrafa pet também”, ensinou.

Não parece, mas, no saco, um pedaço de vidro, risco que não é restrito ao coletar

Além dos acidentes cortantes, os coletores relatam também outras “surpresinhas”, como sacos carregados com quilos de terra e os já citados cachorros. “Um já grudou na minha perna”, lembrou Osmir Santana, 30 anos. Na correria para tentar evitar a mordida, o acidente pode acontecer na subida do caminhão. “A gente bate o pé, sobe meio errado, torce”.

Coleta – Readir explica que 70% da cidade tem coleta seletiva e, deste total, 16% no sistema porta em porta, em que os caminhões passem em dias e horários pré-determinados, informações no site da concessionária. Também constam informações de como descartar lixo de maneira correta. “Nas palestras, eu pergunto ‘quem é o dono do lixo?’; o dono do lixo é quem gerou, ele precisa ter cuidado”.

Kaleb diz que é difícil descobrir sem algum aviso: “Bota a mão e acaba furando”

 

 

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